Cria Enjeitada


Não tenho pressa e nem penso em ter mais pressa
Vou no meu tranco como boi na verga vai
Esse meu jeito meio rude falquejado
Herdei da vida e um pouco de meu pai

Trago lembranças das grandes matarias
Das águas puras e das sangas sossegadas
Dos vales férteis das serras e dos campos
Da natureza que era ainda respeitada

E sinto cheiro de terra após a chuva
E tantas flores perfumando sem cobrar
Do pão de forno, do apojo e da canjica
Da pitanga, da tuna e do araçá

e há em mim uma saudade latejando
Vozes de pássaros pedindo pra cantar
Gritos de bichos, sementes pequeninas
A espera de que possam germinar

Hoje a ambição fez pousada à minha volta
Plantou desertos em sementes traiçoeiras
Cria enjeitada do progresso que importamos
Batendo palmas a ganâncias estrangeiras

Só temos pressa, e mais pressa pra ter pressa
Receita louca que inventamos pra morrer
De neuroses e calmantes pesticidas
Matando a vida que esta doida pra viver


Algumas palavras contidas nesta letra estão em nosso dicionário de gauchês

TRANCO: Andadura lenta dos eguariços.

APOJO: O leite mais gordo extraído após a segunda apojadura.

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João Chagas Leite - Cria Enjeitada (letra e música para ouvir) não tenho pressa e nem penso em ter mais pressa vou no meu tranco como boi na verga vai esse meu jeito meio rude falquejado herdei da vida e um pouco de meu pai

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