Alegrete · Rio Grande do Sul · Brasil
Letra de música

Finado Trançudo

Pedro Ortaça · Timbre de Galo

Capa de Timbre de Galo
Pedro Ortaça

Finado Trançudo

Timbre de Galo · 1989
Hermanos me dão licença como cristo para Santa Que hoje o finado trançudo canta, recanta e descanta; Por haver amanhecidos com canários na garganta Do que faço com a guitarra nem um outro se aproxima Ronco as cordas de uma a uma indo de baixo pra cima Depois de cinco rompidas fico harpejando nas primas A guitarra meus amigos é a mulher em miniatura Tem o boleado das ancas e o estreito da cintura Canta, cala, grita e chora como qualquer criatura. Por isso me sinto macho com a guitarra nos braços Com ela falo meus dedos tocando cordas e braços E dela tiro o remédio pra curar dos puaços. Me perco pelas bulitas, mas não tremo pelo feio Já briguei com lobisomem num pelado de rodeio E do couro do medonho fiz um xinxão pros areios. Por bueno me considero na dura lida campeira Já saquei couro de touro num só golpe de açoiteira E fiz cair quero-quero num tiro de bolhadeira Cavalo de minha encilha sou eu mesmo quem educo Conhece couvas de touro e ninhos de tuco-tuco E correm mais que uma bala cuspida por um trabuco. Para contar uma tropa dentro de leis me destaco De riba de uma tronqueira dou um vistaço no rastro Somo o desenhos dos cascs e depois divido por quatro. Nasci de corpo fechado, de lombo liso e sem dobras E ate de mim tenho medo quando o sangue me desdobra Se uma cruzeira me pica, fico eu e more a cobra. Se o céu me cair por cima nem me bate a passarinha Chairo a faca e faço um rombo sem dor nem ladainha Saio de baixo pra cima pro lado que Deus caminha. Quem nasceu de queixo roxo por valente se requinta E o caso deste que canta e não há quem o desminta Num saco nunca detive nem antes cortar-lhe as pintas No rastro ninguém me enleia e nem nunca pedi socorro Tenho faro de um paquelhas contra voltas do sorro Que por causa é um bicho esperto cruza de lobo e cachorro Conheço o rengo sentado, conheço o cego dormindo Sanga cheia não me ataca passo por baixo me rindo Quando o alarife vem perto, há muito já vou me indo Entro na perna do pato, saio na perna do pinto Do preto faço a brancura e do branco o retinto E do sereno da noite um litro de vinho tinto. Quando desgaço meus pinto deixo a força e tiro a graxa Do verde faço o maduro e dum prego faço uma taxa Em tempo de chuva grande faço o rio voltar pra caixa. Sou meio Deus, meio diabo, meio herege, meio santo Sou reza, sou impropério, sou berro e sou acalanto Mas sou eu de alma inteira na tradução do meu canto. Por não lamber o que cuspo a prove lhes ofereço Do inteiro faço a metade e da metade faço um terço Do terço, o quarto e o quinto, despinto e desapareço.
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