Música e letra

Finado Trançudo

Por Pedro Ortaça, do álbum Coletânea 17 sucessos de Pedro Ortaça.

1998
Versão completa
Letra

Finado Trançudo

Hermanos me dão licença, como cristo para santa Que hoje o finado trançudo canta, recanta e descanta; Por haver amanhecido com canários na garganta Do que faço com a guitarra nem um outro se aproxima Ronpo as cordas de uma a uma, indo de baixo pra cima Depois de cinco rompidas fico harpejando na prima A guitarra meus amigos é a mulher em miniatura Tem o boleado das ancas e o estreito da cintura Canta, cala, ri e chora como qualquer criatura Por isso me sinto macho com a guitarra nos braços Com ela falam meus dedos tocando cordas e traços E dela tiro o remédio pra me curar dos puaços Me perco pelas bonitas, mas não tremo pelo feio Já briguei com lobisomem num pelado de rodeio E do couro do medonho fiz um cinchão pros arreios Por bueno me considero na dura lida campeira Já saquei couro de touro num só golpe de açoiteira E fiz cair quero-quero num tiro de boleadeira Cavalos de minha encilha sou eu mesmo quem educo Conhecem covas de touro e ninhos de tuco-tuco E correm mais que uma bala cuspida por um trabuco Para contar uma tropa dentre os de lei me destaco De riba de uma tronqueira dou um vistaço no rastro Somo o desenho dos cascos e depois divido por quatro Nasci de corpo fechado, de lombo liso e sem dobras E ate de mim tenho medo quando o sangue me desdobra Se uma cruzeira me pica, fico eu e morre a cobra Se o céu me cair por cima nem me bate a passarinha Chairo a faca e faço um rombo sem dor nem ladainha Saio de baixo pra cima pro lado que deus caminha Quem nasceu de queixo roxo por valente se requinta É o caso deste que canta e não há quem lo desminta Num saco lonca de tigre sem antes cortar-lhe as pintas O rastro ninguém me enleia, nem nunca pedi socorro Tenho o faro de um paqueiro e as contra-voltas do sorro Que pro causo é um bicho esperto, cruza de lobo e cachorro Conheço o rengo sentado e o cego quando dormindo Sanga cheia não me ataca, passo por baixo me rindo Quando o alarife vem perto, há muito já vou indo Entro na perna do pato, saio na perna do pinto Do preto faço a brancura, do branco faço o retinto E do sereno da noite, um litro de vinho tinto Quando adelgaço meus pingos deixo a força e tiro a graxa Do verde faço o maduro, dum prego faço uma taxa Em tempo de chuva grande faço o rio voltar pra caixa Sou meio deus, meio diabo, meio herege, meio santo Sou reza, sou impropério, sou berro e sou acalanto Mas sou eu de alma inteira na tradução do meu canto Por não lamber o que cuspo, a prova lhes ofereço Do inteiro faço a metade, da metade faço um terço Do terço, o quarto e o quinto, despinto e desapareço. Enviado por carlos eraldo machado