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O Canto do Carreteiro

Algo Estranho (2004)

Miro Saldanha

Sonolento fim de tarde
De um retalho de verão;
Cascos que vieram de longe,
Martelando sobre o chão;
Pés descalços na poeira,
Marcas de calo na mão;
Lábios que juntam, sem pressa,
Fragmentos de canção:

REFRÃO
Vai carreta, vai!
Rodando, vai
Que o tempo é patrão.
Em cada roda que gira
Corta tiras deste chão!
Vai boiada , vai
Que há bocas que choram
Com fome de grão;
E da terra que o boi amassa
Vem a massa do meu pão.
E da terra que o boi amassa
Vem a massa do meu pão.

À noite, vem a saudade
Se chegar, branda e faceira;
Cantando frases perdidas
Da toada carreteira;
As mãos, num gesto de fada,
Torcendo vestes caseiras,
Penduram trapos de sonhos
Nos arames da porteira!

REFRÃO

Ainda a última brasa
Teima em ficar acordada
Queimando um resto de vida
Na fogueira já cansada,
Lá se vai o carreteiro,
Deixando, atrás, a toada
Escrita em letras de poeira
Pelos cascos da boiada!

REFRÃO........
Vai...! Vai...!
.......


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