Música e letra

Bochincho

Por Rock de Galpão, do álbum Rock de Galpão - Ao Vivo.

2012
Versão completa
Letra

Bochincho

A um bochincho - certa feita,fui chegando - de curioso,que o vicio - é que nem sarnoso,nunca pára - nem se ajeita.baile de gente direitavi, de pronto, que não era,na noite de primaveragaguejava a voz dum tangoe eu sou louco por fandangoque nem pinto por quirera.atei meu baio - longito,num galho de guamirim,desde guri fui assim,não brinco nem facilito.em bruxas não acredito´pero - que las, las hay´,sou da costa do uruguai,meu velho pago queridoe por andar desprevenidohá tanto guri sem pai.no rancho de santa-fé,de pau-a-pique barreado,num trancão de convidadome entreverei no banzé.chinaredo à bola-pé,no ambiente fumacento,um candieiro, bem no centro,num lusco-fusco de aurora,pra quem chegava de forapouco enxergava ali dentro!dei de mão numa tiangaçaque me cruzou no costadoe já sai entreveradoentre a poeira e a fumaça,oigalé china lindaça,morena de toda a crina,dessas da venta brasina,com cheiro de lechiguanaque quando ergue uma pestanaaté a noite se ilumina.misto de diaba e de santa,com ares de quem é donae um gosto de temporonaque traz água na garganta.eu me grudei na percantao mesmo que um carrapatoe o gaiteiro era um mulatoque até dormindo tocavae a gaita choramingavacomo namoro de gato!a gaita velha gemia,Ás vezes quase parava,de repente se acordavae num vanerão se perdiae eu - contra a pele maciadaquele corpo moreno,sentia o mundo pequeno,bombeando cheio de enlevodois olhos - flores de trevocom respingos de sereno!mas o que é bom se termina- cumpriu-se o velho ditado,eu que dançava, embalado,nos braços doces da chinaescutei - de relancina,uma espécie de relincho,era o dono do bochincho,meio oitavado num canto,que me olhava - com espanto,mais sério do que um capincho!e foi ele que se veio,pois era dele a pinguancha,bufando e abrindo canchacomo dono do rodeio.quis me partir pelo meionum talonaço de adagaque - se me pega - me estraga,chegou levantar um cisco,mas não é a toa - chomisco!que sou de são luiz gonzaga!meio na curva do braçoconsegui tirar o talhoe quase que me atrapalhoporque havia pouco espaço,mas senti o calor do açoe o calor do aço arde,me levantei - sem alarde,por causa do desaforoe soltei meu marca touronum medonho buenas-tarde!tenho visto coisa feia,tenho visto judiaria,mas ainda hoje me arrepialembrar aquela peleia,talvez quem ouça - não creia,mas vi brotar no pescoço,do índio do berro grossocomo uma cinta vermelhae desde o beiço até a orelhaficou relampeando o osso!o índio era um índio touro,mas até touro se ajoelha,cortado do beiço a orelhaamontoou-se como um couroe aquilo foi um estouro,daqueles que dava medo,espantou-se o chinaredoe amigos - foi uma zoada,parecia até uma eguadadisparando num varzedo!não há quem pinte o retratodum bochincho - quando estoura,tinidos de adaga - esporae gritos de desacato.berros de quarenta e quatrode cada canto da salae a velha gaita bagualanum vanerão pacholento,fazendo acompanhamentodo turumbamba de bala!é china que se escabela,redemoinhando na portae chiru da guampa tortaque vem direito à janela,gritando - de toda guela,num berreiro alucinante,índio que não se garante,vendo sangue - se apavorae se manda - campo fora,levando tudo por diante!sou crente na divindade,morro quando deus quiser,mas amigos - se eu disser,até periga a verdade,naquela barbaridade,de chínaredo fugindo,de grito e bala zunindo,o gaiteiro - alheio a tudo,tocava um xote clinudo,já quase meio dormindo!e a coisa ia indo assim,balanceei a situação,- já quase sem munição,todos atirando em mim.qual ia ser o meu fim,me dei conta - de repente,não vou ficar pra semente,mas gosto de andar no mundo,me esperavam na do fundo,saí na porta da frente...e dali ganhei o mato,abaixo de tiroteioe ainda escutava o floreioda cordeona do mulatoe, pra encurtar o relato,me bandeei pra o outro lado,cruzei o uruguai, a nado,que o meu baio era um capinchoe a história desse bochinchofaz parte do meu passado!e a china? - essa pergunta me é feitaa cada vez que declamoé uma coisa que reclamoporque não acho direitaconsidero uma desfeitaque compreender não consigo,eu, no medonho perigoduma situação brasina